VEJA OS VÍDEOS - Série de 4 reportagens mostra o trabalho do Celeiro do carro Antigo, em Tijucas
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WEBMOTORS - Texto: Gustavo Henrique Ruffo
Gilberto d’Ávila Rufino é um advogado apaixonado por veículos antigos. Como em boa parte das histórias de paixão no mundo dos automóveis, a dele acabou se mostrando um negócio atraente, que o fez se dedicar integralmente à reconstrução ou criação de carros com carroceria de madeira, batizados, nos EUA, com o nome carinhoso de “woodies”. Em sua oficina em Tijucas, uma cidade de pouco mais de 25 mil habitantes a 50 km de Florianópolis, Santa Catarina, Rufino e sua equipe vêm dando forma a diversas carrocerias novas, construídas com o material nobre, algumas vezes inclusive colocando-as em veículos originalmente de metal.
Isso porque a maior parte dos woodies não vinha de fábrica com a carroceria, mas sim de grandes marcenarias, como a Cantrell, a Hercules e a Campbell. Apenas Henry Ford, que gostava de controlar todo o processo de produção de seus carros, tinha dentro de suas unidades fabris uma linha especificamente direcionada aos woodies. Tanto que foi uma das últimas empresas a deixar de produzir veículos do tipo, com a Mercury, em 1954. A outra foi a Buick, mas essa não tinha fabricação própria das carrocerias de madeira.
O processo de transformação era dos mais interessantes: o comprador de um veículo novo ou usado levava seu carro a uma concessionária e solicitava a mudança. Desde então ele já ficava encarregado ou de guardar as peças de metal de seu carro ou de dar cabo a elas de alguma forma, visto que essa responsabilidade era sua e de mais ninguém. Iam para a marcenaria apenas a parte dianteira, o banco dianteiro (ele era inteiriço, levando o motorista e os passageiros da frente), um terço do assoalho e os pára-lamas. O resto ia nu “em aço”, ou seja, com o chassi à mostra.
Era só disso que a empresa precisava para dar ao automóvel uma nova carroceria e, por vezes, uma nova função. Sedãs se tornavam conversíveis, conversíveis viravam peruas e por aí afora, dependendo do que o cliente quisesse e, mais importante que isso, pudesse pagar.
As primeiras woodies, de 1910, eram carros extremamente baratos, simples e, por isso mesmo, utilizados para o transporte de passageiros e de carga em estações de trem dos EUA e do Reino Unido. Foi delas que veio o termo “station wagon”, ou furgão da estação, hoje popularizado pelas pessoas que acham feio chamar um carro de “perua” ou “caminhonete”.
Com o tempo, as carrocerias também deixaram de ser mero quebra-ganho para ficarem mais complexas e sofisticadas, com o uso de madeiras nobres e desenhos exclusivos, que tornavam cada automóvel diferente, único. Nas estações de trem, elas passaram a ser destinada apenas ao transporte dos passageiros mais ricos.
Isso se tornou mais agudo durante a Segunda Guerra Mundial, quando a mobilização desviou a produção de bens de consumo para a produção de armamentos e veículos de transporte das tropas. Com isso, restava aos consumidores que queriam um outro tipo de carro, geralmente os mais abastados, a transformação em madeira. O aço estava em falta no mercado. Ocorria também de pessoas mais pobres recorrerem às carrocerias de madeira, mas eram veículos sem o mesmo cuidado dos que se mantiveram preservados até hoje.
Quando a situação se normalizou, as carrocerias de madeira haviam caído no gosto popular, tornando-se um símbolo de sofisticação e riqueza, e as fábricas tiveram de se adaptar a isso, pelo menos até que as exigências de segurança as tirassem de linha de produção. Pouquíssimo maleável, a madeira tende a se quebrar em choques, o que agrava as conseqüências de um acidente. Da carroceria, ela acabou passando para o volante e para o painel, onde permanece em veículos mais caros.
Antes que saíssem de linha, os woodies ganharam novas variações além de “station wagons”, tornando-se também belíssimos conversíveis de madeira, como o Chrysler Town & Country e o Ford Sportsman, este último em projeto para ser reconstruído no “Celeiro do Carro Antigo”, nome da empresa de Rufino (o site é www.celeirodocarroantigo.com.br). Sobre o capô de um Ford 1946 bastante enferrujado está uma foto do Sportsman, o que deixa qualquer visitante ansioso para ver o resultado final.
O WebMotors teve a oportunidade de visitar a oficina do “Celeiro do Carro Antigo” e viajou, de Florianópolis a Tijucas, a bordo de uma belíssima “station wagon” Ford 1946 Woody.
Quem nunca teve a oportunidade de andar em um carro antigo deveria experimentar a sensação pelo menos uma vez na vida. Isso porque um antigo, ainda mais se for especial como um Woody, parece ser transparente. As pessoas que observam o carro não o fazem com uma expressão menos agradável que a risonha. Leve ou escancarado, o sorriso estampa todos os rostos. E não se trata apenas de senhores mais idosos ou de meia idade que se recordam de ter visto ou dirigido um veículo semelhante, mas também de mulheres, crianças e adolescentes. É uma quebra no carrancudo modo de conduzir que aprendemos no trânsito atual de qualquer grande cidade.
O passo da perua é suave, com um potente motor V8 de 100 hp (pouco mais de 101 cv) de marcha lenta baixíssima, na casa dos 200 rpm! O câmbio, de apenas três marchas e alavanca atrás do volante, conta com o torque alto do V8 para pôr em movimento o peso do veículo, mas já sente o peso dos anos. Não é nada, de todo modo, com que a técnica de dupla debreagem não possa lidar. Essa técnica consiste de duas pisadas no pedal de embreagem, uma para desengatar a marcha e outra para engatar a próxima, a fim de dar ao câmbio e ao motor condição de acharem seu tempo.
Por dentro, o teto, com estrutura de madeira, coberta por uma lona, garante proteção contra o sol forte de Santa Catarina. Ao contrário do que poderia parecer, a perua é muito silenciosa por dentro, sem o chacoalhar característico que as peças de plástico se habituaram a fazer. Só o que se ouve é o murmúrio do V8. O que se vê são sorrisos.
Chegando a Tijucas, o que se vê é uma oficina instalada num casarão antigo, do mesmo tempo, ou até mais velho, que os carros que ali ganharão nova vida. Em grandes bancadas, as estruturas de madeira de lei vão sendo preparadas para um perfeito encaixe nas carrocerias em recuperação.
As dobradiças e fixações são reproduções fiéis, feitas pela própria equipe de Rufino, que conta com dois esmerados artesões, pai e filho, baseados nos modelos originais, dos quais Rufino comprou projetos e os próprios veículos, para recuperá-los e tirar os moldes necessários. “Eu sou um fornecedor de peças. Tanto para um veículo a ser restaurado como para um a ser reconstruído. Para a reprodução do Town & Country, comprei um veículo nos EUA”, diz Rufino. O processo de produção de uma nova carroceria leva em média seis meses, mas pode durar mais.
Na parte de trás da oficina estão guardados os modelos que se transformarão em woodies. Muitos deles tinham originalmente a carroceria de madeira, já bastante gasta, mas a maior parte dos Mercury, Chrysler, Ford e De Soto estão ali para ver uma estrutura daquelas pela primeira vez em suas longas jornadas.
Pode parecer estranho ver um woody com carroceria em mal estado, mas, depois de seu apogeu, esses carros passaram a ser considerados feios, desajeitados e inseguros, especialmente nas décadas de 1960 e 1970. Isso fez com que seus preços caíssem muito e que eles fossem adotados por surfistas, responsáveis por torná-los, novamente, veículos de relevância.
Desvalorizados, os woodies se tornaram ideais para os esportistas das ondas. Primeiro, porque eram baratos e acessíveis; segundo, porque eles eram espaçosos, especialmente as peruas, que transportavam em média sete passageiros e todas as pranchas e equipamentos; por último, porque suas carrocerias eram resistentes à maresia e, se tivessem algum dano, poderiam ser reparadas por um bom carpinteiro.
Atualmente, a Califórnia é o paraíso desses veículos, que se tornaram, mais uma vez, veículos desejados pelos consumidores, com o agravante de terem se tornado extremamente raros, o que torna seu valor bastante elevado. “É como construir dois carros em um só, porque nos preocupamos com a carroceria de metal e com a parte de madeira, toda artesanal”, diz Rufino.
Os veículos recuperados ou produzidos pelo Celeiro do Carro Antigo seguem essa tendência, até pela especialização necessária ao resultado, que você pode conferir pelas fotos ao lado. Os valores só são fornecidos sob consulta, variando de acordo com a raridade de cada modelo, mas, em leilões internacionais, eles ultrapassam R$ 200 mil.


